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100 Anos do Ilê Axé Opô Afonjá, um dos mais tradicionais terreiros de candomblé do país

Data: 19/08/2010

Um século de força, afirmação de identidade e resistência negras

 

“Todos os que passam do portão do terreiro para dentro são considerados por Xangô, seus filhos”. Com esta frase a professora Vanda Machado, egbomi do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, recebe os que chegam a um dos mais tradicionais terreiros de candomblé da Bahia. A cortesia e acolhimento dedicados aos que chegam ao candomblé são os de sempre. A diferença, este ano, fica por conta do aumento do fluxo de visitantes. Afinal estão sendo comemorados os cem anos de existência do famoso santuário da cultura nagô, “um fabuloso espaço de resistência cultural e política”, como frisou o Ministro da Igualdade Racial, Eloi Ferreira de Araujo, lembrando a luta contra a intolerância religiosa de Mãe Aninha. Uma descendente de africanos da nação grunsci que fundou o Ilê em 1910 e foi sua primeira ialorixá (mãe de santo, dirigente do terreiro). “Foi ela quem se dirigiu pessoalmente ao presidente Getúlio Vargas, e convenceu, numa época de enorme repressão enfrentada pelos terreiros, que os candomblés pudessem louvar os orixás sem a invasão da polícia”, relembrou Eloi Araujo, no discurso de abertura dos festejos do centenário do terreiro, em 30 de julho de 2010.

ministro eloi no opo afonja

Ministro Eloi Ferreira de Araujo

muniz sodre

O acadêmico Muniz Sodré, presidente da Biblioteca Nacional e Obá (Ministro) de Xangô do Opô Afonjá

wanda machado e marco antonio guimaraes

Professora Vanda Machado e psicanalista Marco Antônio Guimarães

A comunidade do terreiro situado em São Gonçalo do Retiro, periferia de Salvador,vem recebendo seus filhos de santo, autoridades das esferas governamentais, intelectuais e o público em geral para participar dos festejos. No próximo dia 23 de agosto, haverá sessão solene no plenário da Câmara dos Deputados em Brasília, organizada pelo deputado federal Zezeu Ribeiro, com a presença da Mãe Stella de Oxossi, atual ialorixá dirigente da Casa e de filhos e filhas do Ilê Axé Opô Afonjá, cujo nome em língua iorubá significa “Casa de Força Sustentada por Xangô.”

No mesmo dia, acompanhada do Ministro Eloi Ferreira, da Igualdade Racial e do Secretário de Comunidades Tradicionais da SEPPIR Alexandro Reis. Mãe Stella será recebida pelo Ministro Fernando Haddad. No encontro, será apresentada ao Ministro da Educação, proposta de adoção dos livros de autoria de Mãe Stella pelo Ministério para serem utilizados como material didático no sistema de ensino do país.

Santuário de Xangô - Foi em referência a este Orixá que a criadora do Axé, dona Eugenia Anna dos Santos, a famosa Mãe Aninha, fundou o terreiro no ano de 1910. Mãe Aninha dizia sonhar ver os filhos do Axé “de anel de doutor nos dedos e aos pés de Xangô”. Passados cem anos, e sob a direção de Mãe Stella de Oxossi, o Opô Afonjá, além de espaço de culto ao sagrado, é sinônimo do “axé” (força), de resistência cultural e local de afirmação das identidades negras.

entrada do opo afonja

Ocupando uma área com cerca de 39.000 m2, o terreiro abriga ainda a Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, reconhecida pelo MEC como instituição modelo no que se refere àquilo que a lei 10639/2003 advoga: que as escolas do país devotem tempo e atenção à história e a força das culturas negras. Estas tão bem representadas por personagens como mãe Aninha e Mãe Stella, mas também por outras sacerdotisas que ocuparam o posto máximo daquela Casa, tais como Mãe Bada, Mãe Ondina, Mãe Senhora. Todas elas homenageadas nos festejos que vêm sendo realizados no Axé. Além destas, tantas outras valorosas zeladoras dos deuses de origem africana, tão amados e reverenciados em nosso país, vem acolhendo em seus terreiros aqueles que buscam proteção, força vital, esperanças, troca comunitária e felicidade na religião dos Orixás.

No caso de Mãe Stella, trata-se de uma filha de Oxossi que exerce também a função de escritora, devotada à preservação da memória do culto. E a contribuir efetivamente para que todos que protagonizaram a história do Ilê Opô Afonjá integrem-se já neste século XXI e nos vindouros, às páginas que registram a História Oficial da Nação Brasileira.

stella de oxossi ialorixa do opo afonja

Stella de Oxossi, Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

COMUNICAÇÃO SOCIAL / SEPPIR/PR